Balanço da invasão da FFLCH

Texto de autoria do professor Mario Viaro, da Letras-FFLCH

Estive há pouco na Administração da FFLCH e seria interessante se alguém da “falange” (como gostam de se denominar) respondessem às seguintes questões que não são só minhas:

* Há de fato ética num movimento que usa uma aluna-estagiária que conhece os meandros e o funcionamento, bem como dispõe da confiança dos colegas funcionários, para abrir portas de gabinetes?

* Há de fato ética num movimento que deleta sindicâncias e processos administrativos nos computadores, deixando os funcionários responsáveis desesperados por que terão de responder por isso?

* Há de fato ética num movimento que depreda uma copa, fazendo pipocas em cafeteiras, rouba xícaras e outros pertences, estraga troféus e deixam toda a confusão (que era monstruosa) para as faxineiras resolverem?

* Há de fato ética num movimento que atrapalha o pagamento dos setores terceirizados, o mesmo que foi mobilizado tão recentemente, dando oportunidade para a fonte pagadora justificar o calote?

* Há de fato ética num movimento que rouba celulares e tudo o mais que havia no armário de achados-e-perdidos “menos livros e cadernos ” (comentário irônico de um dos funcionários, visivelmente desesperado).

* Há de fato ética num movimento que intimida funcionários, por pura paranoia de ser reconhecidos. Um deles comia uma maçã e foi violentamente abordado por um integrante que pensava que estava filmando. Outra, grávida e responsável por documentações confidenciais, foi intimidada na entrada, como tantas outras, pois exigiam identificação, embora eles mesmo não se identifiquem.

* Há de fato ética num movimento que retira bancos de concreto para fazer barricadas e deixa-os para que os próprios funcionários os recoloquem?
Passando em frente à reitoria, fechada com um bunker, encontra-se o grupelho remanescente, abandonado por todos (não havia viva alma apoiando-os como das outras vezes), votos vencidos em assembleia, deprimentemente abandonados ao léu.

Que não haja confronto violento é o meu voto, mas que respondam por tudo que fizeram é a minha vontade (e de toda a população que não financia uma universidade pública para ser depredada pelos seus próprios integrantes). Que as cabeças deles sejam as de verdadeiros indivíduos e não de massa de manobra de qualquer liderzinho, usando-os num exercício de doutrinação para lá de anacrônico.

Parabéns, “revolucionários”, vocês conseguiram colocar aluno contra aluno, funcionário contra aluno, professor contra funcionário etc. E toda a sociedade contra nós. Nenhum tirano teria maior sucesso em dividir para governar. O problema é que vocês não governam. Ainda bem que existe democracia (ainda).


22 Comentários

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22 respostas para Balanço da invasão da FFLCH

  1. Pingback: Sketcheria » Off-Topic total. Ranzinza eu sempre fui. Agora fiquei velho, me segura!

  2. Anônimo

    O professor Mario conseguiu nesse texto levantar a questão principal deste conflito: onde está a ética?

  3. Eu nunca vi se questionar a ética de um protesto. Protesto é protesto, professor. O que você sugere, que se entregue flores à PM e ao Reitor?

    • Anônimo

      Curioso perceber que há dois pesos e duas medidas. Afinal, são sempre as vítimas de tudo e de todos. Protesto é protesto, desde que não seja contra eles.

    • Luciana

      Nossa, quanto conhecimento! Protesto é protesto?? Se você pensa isso, companheiro, com certeza é porque você não tem um objetivo de vida e muito menos tem características de líder. Deve ser um baderneiro, que vive às custas do dinheiro do papai e demora 6 anos para ser formar em História. “Haverá um dia em que o homem deverá deixar as ilusões de lado e se deparar com a vida hostil tal qual ela se apresenta”. Freud.

    • Essa respostas (flores aos policiais) foi como o Salazarismo em Portugal foi ferido de morte, ligando fortemente população e militares revoltosos.

      • Há de fato ética em alguém que se submete a uma carreira onde impera, mais do que nunca, a sociedade do favor, em que vc tem que bajular alguns para conseguir evoluir profissionalmente?

  4. “Ainda bem que existe democracia (ainda)”
    Quem votou para reitor levante a mão!

    • Anônimo

      Não faz sentido para mim uma peça administrativa sem poder de coerção precisar ser eleita democraticamente.
      A função do reitor é fazer com que a universidade seja um ambiente acadêmico que permita o aprendizado , logo isto não tem a ver com estudantes e professores imporem suas vontades sobre a instituição.

      • Jonatas

        Minha resposta nada tem a ver com o que o professor escreveu, mas com a sua resposta. Passa dinheiro na mão do reitor, que pode muito bem desviá-lo para seus próprios fundos, na UFMS conseguiram que a gestão do reitor Peró fosse investigada pelo MP em 2008, até hoje o MP não deu o resultado, mas tudo prescreve em 2013, estamos na esperança de que se faça alguma justiça até lá. Pelo menos aqui, o protesto foi feito sem contrariar a opinião pública da nação e no fim mostrou algum resultado.

  5. onde está a ética, e onde está a CORAGEM de mostrar a cara, exigir direitos e cumprir deveres.

  6. Max

    Afirmou um dia certo pensador: os fins justificam os meios.

    E complemento: não existe ética na guerra e a pilhagem faz parte do acervo bélico.

    • Luciana

      Como disse, ele é um pensador. Não dono da verdade.

      Então quer dizer que se a polícia entrar lá e der uma surra em todos estes baderneiros, está justificado? Afinal, o fim será a pacificação e o retorno das aulas na USP, o que é o objetivo de todos. Então, já que os meios estão justificados, policiais, por favor, acabem logo com isso!

      • Max

        Sim, cara Luciana, estará justificado sim. Aliás, parece que você não sabe, Nicolau Maquiavel justamente exprimiu seu pensamento para alicerçar o poder opressor constituído. Oras, e por que não usar o mesmo pensamento inversamente agora?

      • Luciana

        Porque eu acredito que deve ter ética nas guerras sim. Porque acredito que os fins não justificam os meios. Os meios são os fatores que determinam quem somos: homens ou animais. Max, aprenda com as virtudes de Maquiavel. E não com os erros dele.

  7. Comando Anhanguera

    Uma “universidade” que apesar das verbas que recebe, mal produz ciência; sequer se enquadra entre as cem maiores do mundo; que vive imersa em disputas “paroquiais” (vide o que ocorre na faculdade de Direito); que não tem mais do que uma dezena de professores reconhecidos por sua produção intelectual; que forma nossos “jovens” apenas para que os mesmos ocupem lugares de destaque nas empresas de suas ilustres famílias; e que há muito tempo se encontra totalmente afastada dos grandes debates nacionais…acho que chegou o momento de repensarmos a inútil universidade de SP (inútil sob a perspectiva do contribuinte é claro)….quem quiser ensino de qualidade que pague por ele….Anhanguera neles

    • Luciana

      Olha, até que concordo com você. Acho que a USP deveria ser paga. Porque o “órgão” mais sensível do corpo humano é o bolso!

  8. Max

    Prezada Luciana, utilizando tuas próprias palavras, tua crença não a faz dona da verdade.
    E por falar em crença, acredite, não existe ética em guerra, pois se existir ética dispensável será a guerra, esta existe justamente pela ausência daquela. Pode-se pensar em regras, mas nunca em ética num conflito.
    Concordo numa coisa, existem virtudes nos pensamentos de Maquivel, porém, em guerras (não éticas) são suas ironias que são empregadas.

    • Luciana

      Caro Max. Qual verdade? A relativa ou a absoluta? Se for a relativa, está enganado. Pois se é a “minha verdade”, sim, eu sou dona dela. Assim como você é dono da “sua verdade”. E por isso que disse que “eu acredito”. Nunca disse que é assim e ponto, e todos devem aceitar o que disse. Só falei o que acredito.
      Ética está relacionada com os valores morais e à conduta humana. Você pode fazer um protesto na USP e não depredar os bens materiais. Quando os bancários fazem greve, eles não quebram os bancos. E na guerra há ética sim. Você pode ir para a guerra e dar um tiro em um outro soldado. Se você for pra guerra sem ter ética, você vai pegar este mesmo soldado e torturá-lo, pelo simples prazer de ver a pessoa sofrer. Você vai matar mulheres e crianças que não estão participando da disputa. As guerras acontecem por interesses e eles são vários. Veja o Oriente Médio como exemplo. Muitos países de lá brigam entre si e seus governantes frequentas as mesmas festas nos EUA; seus filhos estudam nas mesmas escolas e, inclusive, são amigos. A sua ética depende dos elementos morais que você reconhece.

    • Luciana

      Ah, as virtudes que reconheço em Maquiavel não são suas idéias. São sua oratória e poder de persuasão.

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