Dias depois de ficar mergulhado na internet e após concretizarmos uma manifestação inédita nos últimos 20 anos na USP, a pulguinha começou a me picar atrás da orelha. Achei que deveria sair a campo. Não poderia exprimir qualquer opinião sobre a ocupação sem ver de perto o que acontecia. Afinal já podia sentir na própria pele do que a imprensa era capaz ao ver alguns jornais darem a paternidade da criança para a FEA e a POLI. Mais uma vez a capacidade fefelechiana sendo subestimada. Mas isso eu discuto depois.
Não bastaria só ver, precisava ver a posição e a reação deles. Quando cheguei à USP procurei a entrada costumeira da reitoria. Nada além de cartazes agressivos, escritos dentro de universo cheio de ódio.
Tive que circular o prédio e dei de cara com a imprensa que observava tudo atentamente. Ignorei e tentei passar discretamente. Percebi que a entrada era a mesma que vimos ser invadida pela horda de bárbaros. Nunca tinha entrado na reitoria pela garagem.
O dialeto dos que me receberam era o mesmo de uma penitenciária. E a hostilidade também. E a intransigência a mesma daquelas pessoas que costumava enfrentar na tenra adolescência, no pós-ditadura, que odiavam a tudo e a todos que sugerissem posições à esquerda.
Curioso que, apesar de dizerem que definem tudo por assembleia, todas as respostas dadas eram em primeira pessoa: Não quero, não vou, não gosto. Se sair daqui, invado outro lugar.
Um colega de curso vomitava teorias sobre o capitalismo que está ruindo. Tenho o dobro da idade dele provavelmente. Vi o socialismo ruir quando tinha a idade dele. Não entendo o que invadir a reitoria tem a ver com a ruína do capitalismo. O que teríamos de ter invadido quando ruiu o socialismo?
As mocinhas que davam assistência a tudo e controlavam tinham uma educação e uma aparência mais leite com pera e falavam o meu dialeto. Como sou de origem rural, chamaria de patricinhas da cidade. Onde estaria a Véronique?( La Chinoise, J. L. Godard). Será que alguém vai levar bronca da irmã por ter deixado a casa suja na ausência dos pais?
Ao contrário do que normalmente escutamos no meio estudantil acadêmico, eles não “acham” nada, “têm certeza”. Portanto, não há diálogo, já está tudo imposto. O argumento é de que tudo já fora decidido em assembleia, cuja metodologia já conhecemos por experiência própria recente.
Na minha experiência dentro de nossa jovem democracia, fazer uma política saudável é apresentar propostas, argumentar, falsear os argumentos, deliberar, entrar em consensos ou não e respeitar a posição majoritária, sem negar o direito de uma minoria demonstrar suas propostas e esclarecimentos sobre ela.
Ao sugerirem que eu fosse alguém da imprensa, esfreguei minha carteirinha da USP na cara deles. Ninguém me mostrou a sua. Depois de ouvir muitos: “não”, “vá embora”,“não queremos conversar”, “não queremos”, ouvi:
“Você está tentando nos forçar a algo que não queremos.”
Foi a frase que me definiu tudo. Eles querem, e os outros são um obstáculo.
Eles querem mandar a polícia embora para estabelecer as suas leis. Querem estabelecer um mundo sem polícia para não mais serem reprimidos. Não há espaço para superego. É a política do id, das pulsões, dos desejos, da agressividade sem controle. Não há espaço para o consenso.
Quando gritam “Abaixo a repressão”, é contra a repressão dentro do conceito freudiano que estão gritando.
O outro é demonizado com epítetos que vão de “burgueses”, “playboys”, “mercenários”, “capitalistas”,” fascistas”,” reacionários”, “reaças”, “opressores”,”nazistas”, “elitistas”, “escravocratas”, “empreendedores”,… me ajudem se eu tiver me esquecido de algum.
Como numa religião em que o demônio é o centro das atenções e a origem de todos os males não há análises existencialistas ou autocrítica política. O inferno deles são os outros (Entre quatro paredes, J. P. Sartre).
Com tudo isso, concluo que recentemente tenho lido muito sobre teorias democráticas. Preciso urgentemente ler sobre totalitarismo, técnicas de golpe político, artimanhas políticas. Afinal a democracia é composta de uma fauna bem ampla, onde temos que aceitar a necessidade da sobrevivência das diversas espécies.
Creio que o embrião dessas mentes não esteja na FFLCH, nos grupos de estudo anacrônicos, mas sim na construção de suas personalidades, dentro de minha pouca experiência em abordagem psicanalítica.
Lembrei-me de minha breve experiência de baby-sitter, logo após a queda do muro de Berlim.
Eu suspirava:
Quem educou essas crianças?
Eu pedi a conta. E acho que a USP deveria fazer o mesmo.
Márcio Becker Góis
Graduando em Filosofia – 2º ano – FFLCH – USP
Graduado em Artes Cênicas – ECA – USP

Post perfeito!!!!!! Parabens
Queremos a presença da ROTA na USP já!
Matou a pau!
Absurdamente perfeito o texto, nem te conheço e virei teu fã, pela tamanha lucidez.
Parabéns pelo texto. Irretocável! Li e reli com gosto, realmente parbéns!
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faltaram “neoliberal”, “entreguista”, “privatista”, “burguês”…
Sensacional, parabéns !
No universo deles não existe ódio, existe sim falta de discernimento e excesso de marginalidade. Dentro dessa liderança, ( se é que tem ), certamente há indivíduos almejando o status de líder de quadrilha.
amigo meu esquerdista me diz que tem algo a ver com uma revolta contra o reitor e talz… mas isso é tudo balela neh? inventaram desculpinha depois pq o centro da revolta deles é não poder fumar maconha, que bandinho de “estudantes” hein? mas mesmo q fosse nada justifica o que fizeram bando de vagais cara…
Bela “reportagem” cara… cobriu integralmente uma parcela minuscula do movimento, e justamente a parcela que teve ações precipitadas e ingênuas. Que tal agora cobrir todo o cenário e constatar as falcatruas do reitor, o escolhido do governador, e os abusos de autoridade por parte da PM? Há! Vc pode tbm ir ouvir o grupo de estudantes que achou sensato não invadir a reitoria mas que ainda assim não concordam com a forma que a PM tem agido a tempos lá dentro, acho que entre eles tbm existem diversas visões ideológicas.
O mais degradante de tudo é o foco sensacionalista que mídia da à ocupação desnecessária feita por uma minoria de estudantes, o que acaba por desmoralizar o movimento como um todo. Isso esconde a verdadeira situação na USP. Outro aspecto que me chamou a atenção é a grande e desproporcional movimentação policial em torno da desocupação, sem que a ênfase no diálogo, uma nova assembléia dos estudantes estava marcada para o dia seguinte, nela havia a possibilidade dos ocupantes de desistirem da ocupação já que não era uma decisão compartilhada por todos.